quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dona Beja de Araxá (1800-1873)

Dona Beja: a santa e a puta. Um género de Evita do seu tempo. A biografia de Agripa Vasconcelos é uma obra valiosa, para quem pretende entender e aprender sobre esta figura do século XIX do Brasil mineiro.
Ana Jacinta de São José(seu nome de registo) nasceu em 1800, em Formiga (Estado de Minas Gerais), no seio de uma familia de classe média. Filha de pai desconhecido, a gravidez da mãe causou grande preocupação e vergonha na família, pois eram respeitados junto da sociedade local. Após a morte da avó, o avô e a mãe de Beja decidem deixar Formiga e mudar-se para Araxá, para apagar o pecado do passado e começar de novo. Beija tinha 5 anos.
O avô compra uma pequena propriedade, era dono de alguns escravos e cria a neta juntamente com a mãe, e até a morte da mãe, que falece ainda jovem. A partir daí, Beja cresce sob protecção do avô até se tornar uma bela moça, cobiçada pelos jovens da vila. É nessa altura que conhece António Sampaio, na catequese, o seu amor de infância, um filho de fazendeiros ricos.
Quando Beja tinha 15 anos, o ouvidor do rei português, Joaquim Inácio Silveira da Motta, também ele português, vem em visita oficial a Araxá, para se apresentar à sociedade. Conhece Beja no baile em sua honra e apaixona-se perdidamente. No dia seguinte, manda capangas matar o avô de Beja e raptam a jovem levando-a para Paracatu, também em Minas Gerais. Beja vive lá dois anos até que ambos perdem o interesse um pelo outro e, já rica, decide voltar a Araxá. Com ela leva todo o contéudo do palácio onde viveu com o nobre português, para além das jóias, ouro e diamantes oferecidas pelo amante e pela alta sociedade de Paracatu. A sua beleza era falada por todo o lado.
Beja era uma mulher forte mas melancólica. A morte do avô marcou-a para sempre. Chegada a Araxá, manda construir um palácio, uma chácara, onde viveu durante a maior parte da sua vida em absoluta luxúria.
O seu amado de infância, António Sampaio, estava casado e as mulheres de Araxá não suportavam a sua beleza e os magníficos olhos verdes. Começa então a receber homens em casa, ricos, que lhe tornaram ainda mais rica. Torna-se prostituta de luxo, sendo a sua fama nacional. Vinha gente de todo o lado para ver Beija, mas ela era muito selectiva e só recebia quem queria.
Beja tinha um coração nobre, ajudou muitos pobres e na sua casa realizavam-se verdadeiras tertúlias com a nata do seu tempo. Políticos e intelectuais que admiravam não só a sua beleza mas também inteligência e trato fino, apesar de ser analfabeta.Reata uma relação com António Sampaio mas anos depois dispensa-o. Ele não lhe perdoa e manda capangas espancá-la. Ela nunca admitiu saber quem foi o responsável pelo espancamento, mas fez questão que António Sampaio pagasse a vingança com a vida.
Beja teve duas filhas. Uma de António e outra de João Carneiro de Mendonça, filho de um madeirense. As filhas chamavam-se Teresa e Joana.
Casou as filhas cedo, com homens de famílias ricas. Após 25 anos de 'vida má', como dizia, decide vender tudo em Araxá e viver em paz e no esquecimento. Vai para Bagagem, a sua última morada, viver próximo da filha Joana e dos netos. Nessa altura, Bagagem era um poiso de vagabundos e gente à procura de riqueza fácil, através da extracção de diamantes. O ambiente no local não era o melhor, com muitos bandidos. Muito diferente da calma de Araxá. Beja morreu de velhice aos 73 anos.
Para a história fica o fascínio que despertou, devido à sua beleza, o poder que tinha junto das autoridades, e da ala masculina, e a fama que deu à água da fonte da Jumenta, em Araxá, que dizia fazer rejuvenescer. Hoje está provado que são águas de grande qualidade. Em Araxá, é possível visitar ainda a casa de Beja tal como foi construída, e o museu com alguns dos seus pertences.
Outra curiosidade, e segundo algumas pesquisas, é o facto de o pai de Beja poder ter sido um padre açoreano que emigrou para o Brasil. Provado está que a sua filha Joana era neta de um madeirense.
Apesar da recente polémica com a actriz Maitê Proença em Portugal, tenho que admitir que não poderia ter sido escolhida melhor actriz para representar Beja, na novela dos anos 80. Pela descrição do livro, acredito que a beleza de Maitê esteve à altura da verdadeira Ana Jacinta de São José.
E pronto, matei parte da minha curiosidade, e aprendi também imenso sobre o povoamento de Minas Gerais. A outra parte será saciada quando viajar até Minas e visitar todos estes sítios!

13 comentários:

  1. Gosto tanto de histórias de vida!!! Lembro-me bem de ver a série Dona Beija, apesar de na altura em que passava na RTP eu ter cerca de 10 anos.

    ; )

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  2. Que bacana, aprendi mais sobre uma personagem do meu país com seu post.....
    beijinhos

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  3. Amiga,

    Ja tinha saudades destes teus posts :)

    Beijinhos

    (sim, sou eu... lol)

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  4. D. Bêja veio com o avô sua avó morreu pra não ver sua filha morta a avó morreu e salvou a vida das duas neta e mãe, nem todos comentario sobre D. Bêja não é verdadeiro muitos aumenta,ela foi uma sofredora pela sua beleza.a foto que vi dela mais nova não é ela já a que ela esta idosa essa sim é ela. Muitos culpa por tantas coisa infames mais ninguém vê o que ela sofru com o rapito passou a ter dupla personalidade, quando volta pra sua terra é recebidade com o povo virando as costa pensa se fosse com um de nós ta ai algo a se pensar né. AMO E ADIMIRO A HISTORIA DE D. BÊJA.

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  5. Eu sou descendente de Dona Beija

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    1. PRECISO DE INFORMAÇÕES SOBRE O GENRO DE BEJA QUE TEVE O SOBRENOME RIBEIRO

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    2. Minha tataravó (Luiza Rosa de São José) era de Sacramento-MG e segundo minha avó e seus irmãos, era parente da Dona Beja. Se alguém tiver informações sobre a genealogia de Dona Beja, além do que está aqui, favor entre em contato (plinio.pierry@gmail.com).

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  6. Pra mim ela já nasceu marginalizada pela sociedade. Sofreu com a beleza e o rapto seguido de morte. Viu o seu amor se casar com outra e ainda ficou de vilã na história sem honra pra época mesmo sem ter feito nada. Daí ela pirou e ficou histrionica pq ao m parecer ela gostava de seduzir sexualmente os homens e lógico se dar bem com isso.

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  7. Sou exaneto de Beja. E não gostei do blog!

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  8. Ahhhhhhh. . .eu já tive um sonho cm ela naquele tempo e estive mesmo em um sarau em Araxá onde pude vislumbrar a Beja e detalhes d conversas confidenciais dela nesse dia com um padre, longe dos convidados. .não era feliz , era determinada, tinha propósitos , então, passou por cima d muito ou todo seu sentimento para fazer valer o "sacrifício" d ser invejada e odiada pelos araxanos e seguir sua sofrida e castigada vida, pois, meus amigos .. .dinheiro sem felicidade e paz não eh nada.Ela sabia disso, mas não tinha outra saída...nem quem a apoiasse sem interesse...foi um sonho bem vivido,creio mesmo que estive lá em espírito, através de desdobramento.Aos q se dizem descendentes. . .ora, sintam orgulho , ela fez o melhor q pode para a época.��

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  9. Sou nascida em Formiga e nunca tinha lido a história de Beja com tantos detalhes. Muito bom.

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