segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Ye Olde Cheshire Cheese - O Pub onde Dickens ia molhar o bico

Quando trabalhei na zona financeira de Londres, passava em frente ao "Ye Olde Cheshire Cheese" todos os dias. É uma referência para quem procura pubs antigos. Sempre quis entrar, ontem foi o dia. Aberto tal como está, desde 1667, é uma instituição dos copos e da tertúlia social que teve clientes regulares como os escritores Charles Dickens e Mark Twain, e também o académico que criou o primeiro dicionário da língua inglesa, Dr Samuel Johnson, cuja casa já visitei e fica ali perto. Boswell, Carlyle, Yeats, Thackeray e Roosevelt também vieram aqui molhar o bico. Adorei a experiência de andar por corredores e salas escuras, escadas que nos levam a pisos inferiores onde há mais salas e bares, com imenso carácter e tradição. Dickens e Johnson jantaram muitas vezes no Chop Room. Há também uma primeira edição do livro 'A Tale of two cities', onde Dickens menciona o nome do pub. Excelente forma de acabar a semana.


















quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Biografia da Imperatriz Sissi


Então é assim. Ludovika, Sophie e Augusta eram irmãs. Ludovika era mãe da imperatriz Sissi da Áustria e Sophie era mãe do imperador Francisco José, sendo por isso sogra e tia de Sissi. Ludovika enamorou-se do rei deposto português Miguel de Bragança, não casou com ele porque os pais não acharam uma união conveniente. A filha mais velha de Ludovika, Helen, era para ser a futura imperatriz da Áustria. Acontece que Fransciso José quando a viu conheceu também a irmã Sissi, e perdeu-se de amores por Sissi.

Helen casou com outro aristocrata, teve uma filha que também se chamou Elizabeth e que casou com o Miguel de Bragança filho do rei português deposto. Ou seja, a avó Ludovika não conseguiu casar com quem queria, mas a neta casou com o filho do seu antigo amor.

A irmã Augusta teve uma filha Amelie que foi a segunda esposa de D. Pedro I do Brasil. Deste casamento nasceu a princesa Maria Amélia, que ficou noiva do irmão de Francisco José da Austria, o duque Maximiliano. Maria Amélia acabou por falecer, no Funchal, com tuberculose aos 22 anos.
Por sua vez, a filha mais velha de D. Pedro I do Brasil, a rainha portuguesa D. Maria II, casou com o irmão de Amelie, Augusto Eugénio. Ou seja, Amelie era sua madrasta e cunhada.

Por fim, o irmão mais novo do imperador Francisco José, Karl Ludwig, casou em terceiras núpcias com a infanta Maria Teresa de Portugal, filha de Miguel de Bragança, o tal monarca absolutista que foi deposto.

E isto são só os rendilhados à volta desta excelente biografia. Sissi era uma mulher fascinante e complexa. Com esta leitura, fiquei a gostar um pouco mais de Franciso José e um pouco menos da Imperatriz Sissi.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Eça de Queirós em Bristol

Em Outubro passado fiz uma visita especial ao número 38 de Stoke Hill, nos arredores da cidade de Bristol, para ver e fotografar a casa onde viveu Eça de Queirós. Eça chegou a Bristol em Abril de 1879. Viveu antes em Newcastle, onde exercia a função de cônsul de Portugal. Segundo a biografia escrita por Maria Filomena Mónica (2009), os anos em Bristol foram dos mais felizes da vida do diplomata, jornalista e escritor. Foi ali que escreveu 'A Capital', o 'Conde de Abranhos', 'O Mandarim', 'A Relíquia' e a sua obra prima, 'Os Maias'. Foi também nesta cidade que começou a escrever de forma regular, e com grande sucesso, na imprensa do Brasil.

De início vivia sozinho num apartamento. Após o casamento com Emília de Resende, alugou esta casa grande, em Março de 1886, para poder acomodar a esposa e a futura prole. 




O que me pareceu, na manhã que visitei,  é que o bairro continua a ser uma zona nobre, com espaços verdes muito simpáticos, moradias enormes, muito sossego e próximo da conhecida ponte de Clifton. 


Apesar da residência ser grande e confortável, a esposa de Eça sentia-se ali muito isolada. Era uma casa no campo, nos arredores da cidade, e Emília estava habituada a viver num palacete no centro do Porto. Por essa razão, cerca de dois anos depois foram viver para Londres.
Esta casa é uma propriedade privada, pelo que tivemos sorte de o portão estar aberto e podermos espreitar e tirar algumas fotos. Tenho, aliás, que agradecer à Fundação Eça de Queirós, que me informou da morada da casa de Bristol, pois não conseguia encontrar informação online, e até me enviou uma foto com a proprietária da casa, na década de 60, juntamente com uma bisneta de Eça de Queirós, fotos que também partilho. 



Seja com visitas intencionais ou de circunstância, a verdade é que já explorei sítios queirosianos em Newcastle, Lisboa, Coimbra, Londres, Havana, Tormes/Santa Cruz do Douro e Bristol. Acho que me faltam Paris, (que tendo visitado, não andei à procura de vestígios da passagem de Eça) Leiria, Évora e a Praia da Granja. Ainda me apelidam de stalker. 

sábado, 10 de dezembro de 2022

St. James Church - A igreja em Twickenham que era frequentada pelo último rei de Portugal

Quinta de manhã fui visitar dois sítios que queria conhecer há muito tempo. Primeiro, parei na igreja de St. James, em Twickenham, que era frequentada todos os domingos pelo último rei de Portugal, D. Manuel II, que viveu nesta zona dos subúrbios de Londres desde 1914 até à sua morte ainda novo, em 1932.

Não sabia se poderia visitar o interior. Havia uma sala aberta mesmo ao lado da igreja. Estavam umas pessoas em arrumações natalícias e perguntamos se podíamos entrar. Foram muito receptivos e poucos minutos depois, já no interior da igreja, o padre veio ter connosco e fez-nos uma visita guiada. Que luxo (aposto que foi sorte de aniversariante)!



D. Manuel II era muito estimado pela população local. Envolveu-se como voluntário em várias causas sociais, ao longo dos anos, gostava de tocar no orgão da igreja, durante a missa. Juntamente com a esposa, a duquesa de Bragança de origem alemã, Augusta Victoria, foram padrinhos de vários jovens das redondezas. A última afilhada da duquesa faleceu em 2011.

O padre mostrou-nos os dois vitrais da igreja que foram oferecidos pelo rei D. Manuel II, falou-nos da estima e respeito que os locais tinham por ele, do homem culto que foi e de outros dois vitrais que foram colocados mais recentemente, um em homenagem aos portugueses que morreram durante a primeira guerra mundial, e outra homenageando D. Manuel II como figura humanitária e com grande sensibilidade social. O monarca ajudou a fundar um centro ortopédico que cuidava dos feridos da grande guerra, doava dinheiro às igrejas locais, trabalhou para a Cruz Vermelha e financiou a criação do museu de Twickenham. Quando faleceu, o seu caixão passou pelas ruas de Twickenham que estavam ladeadas com crianças das escolas locais.

                                                     
                                                    Vitrais oferecidos por D. Manuel II

                                
                                    Vitrais mais recentes, em homenagem a Portugal e ao monarca



Depois, o senhor padre levou-nos a visitar um salão paroquial onde estão expostas algumas fotografias e documentos relacionados com o monarca. Uma foto do rei a tocar orgão, e outra com a esposa, que achei muito romântica.

Achei belíssima esta fotografia de D. Manuel II com a esposa, a duquesa Augusta Victoria
                                                    O monarca a tocar o órgão da igreja



                                                                    Interior da igreja

Hoje em dia, os vestígios da estadia da família real portuguesa ainda são visíveis nos nomes das ruas como Manoel Road, Lisbon Avenue, Augusta Road and Portugal Gardens. Da segunda visita conto noutra publicação.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Torna Viagem - o romance do emigrante, de Horácio Bento de Gouveia

Deixei de pertencer ao grupo, que julgo maioritário, de madeirenses para quem Horácio Bento de Gouveia é o nome de uma escola no Funchal. E em boa hora a curiosidade me levou a querer ler um dos seus romances: o Torna Viagem. Que bem que escrevia este homem, que pena não ter ainda maior projecção, e ser mais lido na ilha e no país, apesar de saber que algumas das suas obras até foram publicadas no estrangeiro, e traduzidas para o alemão, espanhol e italiano. 

Que sorte poder desfolhar este romance, que me levou a passear pelas entranhas de Ponta Delgada e Boaventura, a aprender sobre a vida dura do século passado, o apego à terra e às estações, a pobreza como condição permanente, sobre os saberes do campo, os prazeres bucólicos e os hábitos de uma população trabalhadora e habituada à rudeza da vida. De como iam ao Funchal a pé, numa jornada que podia levar mais de um dia de caminhada.

A primeira parte do livro centra-se nessas vivências rurais. Depois, explora o desejo de emigrar para o Brasil e para a Venezuela, acompanhando histórias individuais e familiares, de pessoas que deixaram a Madeira e vingaram como fazendeiros, operários, comerciantes e industriais, na América do Sul. Mais tarde, mandavam dinheiro à família para que vivessem de forma mais desafogada, e para construir as casas grandes que sempre sonharam ter. Há os que vingaram e que se tornaram ricos, dando aos filhos estudos superiores, há os que muito ganharam e tudo gastaram, os que se fascinaram com o rebuliço de Caracas, de São Paulo e do Rio, e esqueceram a mulher e os filhos na Madeira, não dando notícias e regressando a casa décadas depois, ou não regressando de todo.

Comprei este exemplar na Livraria Esperança, no Funchal. Foi publicado em 1979 e  está assinado pelo escritor 🙂. Sei que a Esperança tem alguns livros deste autor, mas há muito pouca coisa disponível, infelizmente. As edições estão esgotadas, o que é uma pena. Se tiverem a sorte de encontrar algum livro do autor, não hesitem. Só tenho pena de não o ter lido mais cedo.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

sábado, 17 de abril de 2021

Tem de ser


A agarrar-me à ideia de que tenho de engolir estes gigantes sapos, na recta final, para poder ter descanso, escolher o que quero fazer a seguir, ser orientada por mais lazer e menos dever. Mas é tão difícil.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Príncipe Philip 1921-2021

O começo de vida do príncipe Philip foi bem dramático. Nasceu no Palácio de Mon Repos, na Ilha de Corfu, e vivenciou todos as convulsões políticas, do início do século XX, que fizeram da Grécia uma República, e atiraram a família real grega para o exílio. Não teve um pai muito presente, a mãe ficou com problemas psiquiátricos e viveu parte da vida numa casa de saúde mental. Quando morre o pai, em 1944, tinha 23 anos e acaba por ser sustentado por um tio. Passou por dificuldades financeiras e até casar com a rainha viveu em colégios privados. Em 1937, esperava a visita a Londres da irmã Cecilie, de quem era muito próximo. A irmã vinha com o marido e dois filhos a um casamento de família. Cecilie estava grávida de oito meses, do terceiro filho, e entrou em trabalho de parto durante o vôo. O avião tentou aterrar na Bélgica com mau tempo, e acabou por se despenhar. Morreram todos. A tragédia marcou o príncipe Philip profundamente. A vida após o casamento com a rainha Isabel II é mais ou menos conhecida. Faleceu hoje aos 99 anos. Que descanse em paz!

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Feliz Páscoa


Tenho saudades das Páscoas da minha infância, passadas na ilha do Porto Santo. Com as primeiras idas à praia, pais dedicados a nós a tempo inteiro, sacos de amêndoas, e momentos felizes com a família e os amigos. Por aqui vamos continuar a confinar, mas o que interessa é estarmos juntos e com saúde. Uma boa Páscoa a todos!

quarta-feira, 24 de março de 2021

Confinamento

O confinamento dura há três meses e não ponho os pés no escritório desde meados de Dezembro. Basicamente, fui de férias no Natal e não voltei. O trabalho tem sido a partir de casa, o que tem as suas vantagens. Não tenho saudades de passar quase 3 horas por dia nos transportes. Mas tenho saudades de ter liberdade. Por estes dias, liberdade significa fazer umas caminhadas, mais ou menos regulares, pelo meu bairro. A foto é da caminhada de Domingo, no centro da vila de Carshalton. 



terça-feira, 23 de março de 2021

O jardim e as raposas


Anda tão desprezado o meu jardim. Mas com o tempo a aquecer, vou começar a meter a mão na terra. Por agora, plantei alecrim e amoras. As raposas não nos têm dado descanso. Fazem visitas diárias e estragam imensa coisa. Vamos lá ver se este ano as tulipas se aguentam.

domingo, 21 de março de 2021

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.


Alberto Caeiro

Chegou a minha estação preferida!


 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Limpar o pó e matar saudades

Faz dois anos que não escrevo aqui nada. Dois anos. E continuo a gostar tanto deste cantinho, das pessoas que me deu a conhecer e das histórias que aqui depositei. Tenho saudades, muitas saudades. Escrever no blogue é bem mais giro que partilhar histórias no facebook. Não uso outras redes sociais para além dessa, mas o blogue continua a ser a minha forma preferida de organizar e partilhar ideias e aventuras. E era só isto. Tenho saudades e quero voltar.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O Verão

As previsões dizem que vamos ter um Verão longo e de muitos dias quentinhos. E como adoro as Primaveras e Verões ingleses, não poderia estar mais satisfeita. Bem-vindo senhor Verão!

sábado, 19 de maio de 2018

Felicidades aos noivos


A Meghan é uma míuda - mulher - de causas, com os pés assentes na terra, bonita, equilibrada e bem formada. O Harry faz parte de uma das famílias mais famosas e protocolares do Mundo, era visto, até não há muito tempo, como um príncipe rebelde e está cada vez mais envolvido em causas sociais e humanitárias. Mais importante do que tudo, estes dois estão muito apaixonados e merecem ser felizes.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Twickenham e D. Manuel II, o último rei de Portugal

Andava há muito tempo para visitar o museu de Twickenham, nos arredores de Londres. Como trabalho nesse município, fui adiando a visita para uma altura mais oportuna. Esta semana, durante a hora de almoço, dei lá um pulo. Já me tinham dito que o museu tinha alguma informação sobre um residente famoso do passado, o último rei de Portugal, D. Manuel II. 
Foi para Twickenham que veio viver no exílio, após a implantação da república em 1910. Ainda bem que fui ao museu. Ainda não tinha conseguido encontrar uma fotografia da casa onde viveu o monarca, Fullwell Park, apenas tinha visto serigrafias. O Museu de Twickenham tem uma foto da propriedade e outra do rei D. Manuel com amigos. A casa foi demolida nos anos 30, do século passado, e mais tarde construíram casas e apartamentos. 
Achei piada ao facto de haver três desenhos do rei feitos por crianças. Um quando era novo, outro na meia-idade e um último já idoso. Acontece que D. Manuel II morreu com 42 anos, em Fullwell Park, uma morte misteriosa que ainda hoje está por explicar. Como tal, nunca chegou a ser idoso.
Nesta zona de Londres, existem também várias ruas que fazem alusão à presença do monarca e referência a Portugal, como a Manuel Road, Lisbon Avenue e Portugal Gardens.
A próxima visita será à igreja católica de St. James, frequentada pelo rei e pela família, pois sei que D. Manuel II ofereceu alguns pertences que ainda hoje são usados.

Fullwell Park: a casa onde viveu D. Manuel II com a esposa
D. Manuel II (em pé, esquerda para a direita)